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Entrevista com a antropóloga Alba Zaluar


"A violência não se explica pela pobreza, a violência se explica pelo ódio armado". Capa do livre 'Cidade de Deus: a história de Ailton Batata', de Alba Zaluar e Luiz Alberto Pinheiro de Freitas Divulgação Alba Zaluar é antropóloga e há anos se dedica com afinco, inteligência e determinação ao estudo da violência e das quadrilhas de traficantes no Rio de Janeiro. A entrevista foi realizada no dia 12 de julho último em seu apartamento repleto de obras de arte contemporânea que comprou do irmão pintor e objetos de cultura popular, nas viagens que fez ao longo da vida. Alba me recebeu com carinho e me concedeu esta valiosa entrevista. Yvonne: Como você entrou na pesquisa sobre violência? Alba: Fui à Cidade de Deus, um conjunto habitacional para onde foram transferidos favelados, querendo saber o que tinha acontecido com o espírito associativo das favelas que todos mencionavam: escolas de samba, blocos de carnaval, associações de moradores etc. Lá chegando, encontrei uma guerra, já no final, mas ainda sofrendo os efeitos, além da nova forma de organização: a quadrilha de traficantes. Ninguém falava disso. Escrevi um capítulo da minha tese de doutorado sobre os bandidos . A tese foi defendida em 1984 e publicada no livro intitulado "A máquina e a revolta: as organizações vicinais e o significado da pobreza", publicado em 1985. Comecei a ser chamada para falar sobre a questão da violência só por causa desse capítulo. As pessoas estavam mais interessadas nos "bandidos". Resolvi voltar à Cidade de Deus para pesquisar as quadrilhas. Yvonne: Isso em que ano, Alba? Alba: Voltei ao campo em 1986, 1987 já com uma equipe de alunos, estudantes universitários que moravam na Cidade de Deus, entre eles Paulo Lins que depois escreveu o romance "Cidade de Deus". Paulo Lins fez entrevistas incríveis. Eu o estimulei a escrever e ele escreveu o romance "Cidade de Deus". O material era tão bom, tão bom, que eu pude escrever vários textos a partir dele, reunidos no livro "Condomínio do Diabo", editado pela UFRJ em 1994 – Condomínio do Diabo é o contrário de Cidade de Deus, certo? Yvonne: O que fascinou você? Alba: O antropólogo tem esse fascínio pelo psíquico, pela formação subjetiva das pessoas que faz com que elas ajam de certa maneira. Eu queria entender por que eles matavam com tanta facilidade, por que eles roubavam sem nenhuma preocupação moral, embora fossem capazes de julgamento moral. Observei que tudo tinha ambivalência enorme. Por exemplo, o Ailton Batata, personagem principal do filme "Cidade de Deus", mas com nome de Sandro Cenoura, tinha um modo de classificar os bandidos: os bandidos com disposição, que realmente trabalhavam e os vagabundos, os que não faziam nada. Ailton usava vários termos para designar o desprezo que tinha por aqueles que não trabalhavam de verdade no tráfico, como ele. Ailton se considerava um empreendedor. Ganhou dinheiro, mas gastou todo com advogados, com casas que ele acabou perdendo, mulheres... farras e tudo mais. Escrevi com o psicanalista Luiz Alberto Pinheiro de Freitas uma biografia de Ailton Batata no livro "Cidade de Deus: a história de Ailton Batata, o sobrevivente". Yvonne: E qual o seu interesse maior? Alba: Eu sempre tive interesse em entender as diferenças entre os traficantes, e entre as quadrilhas de vários bairros do Rio de Janeiro. Fiz outro projeto de pesquisa comparando três bairros, Copacabana, Tijuca e Madureira. Depois, por causa do Ailton, estimulei um aluno meu, hoje professor da UERJ, Luiz Fernando Almeida Pereira, a escrever uma tese não sobre por que entram no tráfico e por que se transformam em seres tão violentos, que matam com facilidade, mas pensar por que deixam o tráfico. O Luiz Fernando fez um bom trabalho, ajudado pelo Ailton Batata que trazia ex-presos para serem entrevistados. Entre as razões destacaram-se religião, mãe ou pai, amor por uma mulher, vontade de constituir família. E também uma certa percepção amadurecida de que o tráfico era uma canoa furada, onde corriam mil riscos e o dinheiro nunca ficava com eles. Acho tudo isso tão humano, não? Shakespeariano mesmo. Não me considero uma especialista de segurança pública. Eu estou mais para o lado da saúde pública, ou entre a saúde pública e a segurança pública por causa dessas preocupações com o envolvimento das pessoas e o que se passa no psiquismo delas para que ajam de tal ou qual maneira. Como se relacionam, como montam suas tramas, seus esquemas e seus conflitos também. Yvonne: E quais são esses conflitos? Alba: Quando leio certas afirmações, por exemplo, dizendo que os traficantes são muito amigos entre si, eu sei que não são. Tenho centenas de entrevistas dizendo justamente o oposto. O que eles dizem? Que há muita desconfiança, muita inimizade, que é fácil uma pessoa amiga trair o outro, dar um tiro no outro, por causa de desconfiança, por causa do medo de ser delatado, por causa do sumiço de uma quantidade de droga, ou mesmo de armas. Eles se matam por causa disso. Sumiu uma arma, quem foi? Por que? Perdeu? Mas como perdeu? A paranoia começa a funcionar e eles acabam trocando tiros entre si. Yvonne: E o que você acha da ideia de que há um genocídio dos negros? Alba: Aí entra um problema sério com os colegas que estudam a segurança pública, mais sério do que a questão da amizade entre os bandidos, a ideia de que está havendo um genocídio dos negros. Não posso dizer isso pelo meu material de pesquisa, que é bastante amplo: são centenas de entrevistas de diferentes fases da história do tráfico no Rio de Janeiro, em diferentes situações. Yvonne: Por que? Alba: Discordo de quem reduz essa complexidade, que envolve tanta coisa – a história de vida deles, os traumas que sofreram, a história das injustiças que tiveram de enfrentar, que às vezes nada têm a ver com "raça" porque é algo familiar. A posição dentro da família, a preferência da mãe por algum dos filhos, coisas assim, que fazem com que a pessoa se revolte. O negócio deles é a revolta, é a revolta que os leva a pegar em armas e a matar. A revolta, num certo sentido, está baseada no ódio. Por isso eu digo, a violência não se explica pela pobreza, a violência se explica pelo ódio armado. Yvonne: Isso é terrível. Alba: Pois é... Por que reduzir essa complexidade que envolve tantos afetos, tantos sentimentos poderosos, à "raça"? A uma "raça"? Dizem que são brancos contra negros. Porém, na maior parte, são jovens negros, matando jovens negros por causa de besteira, por causa de desconfiança, por causa de namorada, por causa de tênis, por causa de drogas que não foram bem vendidas, ou bem pagas. Por uma carreira de cocaína de cinco reais um sujeito pode ser morto, se não pagou direito, se não pagou na hora. Tudo é razão para que o traficante fique indignado, achando que sua masculinidade, seu valor não foi reconhecido pelo outro, o que faz explodir uma reação de raiva. Então não dá para se reduzir tudo isso ao racismo. Até porque, como se vai explicar que, por causa de uma quantidade de droga, um negro mate outro negro? Não é racismo. No caso dos policiais também não se pode concluir que matam por racismo, até porque a maior parte dos policiais do Rio de Janeiro é negra. Yvonne: Por que é errado? Alba: Porque de fato quando você afirma que é o racismo que explica, ignora que a matança não tem nada de sistemática nem generalizada. Não se mata bebês, crianças, mulheres, homens adultos, idosos. Mata-se homens jovens, poucos adultos. Nos genocídios propriamente ditos matam-se todos daquela etnia, daquela "raça" para que eles não se reproduzam mais, para que deixem de existir. É esse o objetivo do genocídio. No caso dos traficantes, é algo intermitente, mata-se quase exclusivamente homens jovens, 80% de homens jovens. Yvonne: Como você enfrenta, e se você enfrenta, esses números tão impressionantes que são apresentados? Alba: Pois é, a "raça" da vítima está principalmente nos dados da saúde. Aí é o cara que faz a autópsia diz se é pardo, se é preto, se é branco. Não é contagem que se baseie na autodeclaração como nos censos do IBGE. E daí os números não coincidem para fazer as taxas com os dados da população no Censo. Mas a maioria das vítimas é mesmo de pardos e pretos. Yvonne: Escuros... Alba: Escuros. Só que justamente o problema é como a classificação é feita. Se o IBGE classifica pela autodeclaração, ou seja, é a própria pessoa que declara sua cor/raça, nas estatísticas criminais é o médico legista que diz se é negro ou se não é, o que é um complicador. Além do mais, o fato de ter maioria de negros não quer dizer que eles foram mortos por serem negros. Tem de saber por que eles foram mortos, quem os matou. Os autores não são investigados, não há estatística sobre isso, nenhuma, zero, por quê? Yvonne: Não tem? Alba: Não. Porque não há investigação. 10% dos homicídios são investigados. 3% chegam até a condenação. Não há nenhuma preocupação com a autoria. Os autores são negros também, por diversas razões. Algumas de cunho pessoal, outras relativas aos conflitos dentro da organização criminosa e outras relativas à concepção dos policiais militares, baseada mais no estereótipo do bandido do que propriamente racismo. Porque a maior parte dos policiais militares é negra também, é parda ou preta. Por que eles teriam ódio dos pardos e pretos como eles? Será que é ódio de si mesmos? É possível. Mas acho pouco provável. Agora, o estereótipo do bandido, esse tem um fundo racial muito explícito. Por que? Porque a maior parte dos moradores das favelas são pardos e pretos. E a maior parte dos bandidos que são vistos na rua assaltando e vendendo drogas são moradores da favela. E aí entra um outro problema mais sério ainda. Porque se só denunciamos o racismo e o genocídio, perde-se o contexto macrossocial em que está o crime organizado, em que está a política de guerra às drogas. O problema para mim é a política de guerra às drogas. É isso que faz com que existam tantos policiais caçando traficantes favelados, em vez de investigar os grandes bandidos, que não são negros e não moram na favela. Por isso eu sou a favor da Lava Jato. Sou a favor da Lava Jato porque acaba com esse negócio de que bandido é preto, pobre e favelado. Os grandes bandidos estão finalmente aparecendo. Yvonne: E os grandes traficantes também? Alba: Os grandes traficantes também, oficiais da aeronáutica, da marinha, do exército, da PM, governantes... tem muita gente envolvida. Yvonne: Pode explicar melhor sua percepção de que não há genocídio? Alba: O racismo se expressa mais nesse estereótipo do que é o bandido que existe no sistema de justiça. Então aparece, por exemplo, na percepção do policial que vai fazer a incursão. Também no B.O., onde o PM acusa o jovem por uso ou tráfico. Na audiência de custódia, quando o juiz leigo decide se aquela prisão provisória vai se tornar prisão preventiva e o acusado vai definitivamente para uma cadeia qualquer. Nessas situações há casos flagrantes de estereótipos e preconceitos prejudicando os negros. Mas em todas elas há agentes que lutam para diminuir esses danos.
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